Órion
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Brincando de fazer cosquinha no umbigo do universo, sentindo que nada além do seu próprio importa. Somos velhas supernovas na infinitude mal definida dos céus e incógnitas numa fração do espaço sideral, que procuram o silêncio — ou o grito — dos cosmos.
sou?

sinto-me algo dentro de algo. não sei. é como se eu fosse um fantasminha no corpo de uma pessoa. não sei quem. eu. sei lá. me chamam pelo meu nome. pelo nome que me deram. meu código de identificação. meu. minha. nem sei se sou eu. o que tenho. se tenho algo. se faço parte. se preencho um espaço na existência. não sei nem se existo. quero dizer. não sou mais o que era anos atrás. não serei mais o que sou daqui pra frente. a criança que contia o mesmo nome que eu. com os mesmos parentes que eu. simplesmente não existe. sumiu. vai ocorrer de novo. eu vou mudar. consecutivamente serei outra pessoa. e a pessoa que sou agora continua em algum canto? não sei. se parar pra pensar a gente morre e nasce todo dia. o que passa deixa e existir e… surge uma coisa nova. não sei. eu realmente não sei.

não era um dia de chuva e não havia janelas.

eu estava sentado no sofá olhando o teto. querendo um cigarro, tentando não pensar. então me veio, num estalo mental absurdo, dois ou três motivos. três ou mais respostas. mas nada me pertencia. adivinhar a vida não é do meu feitio. ficar inerte no sofá até faz o meu estilo já que as pessoas nas ruas e bares estão cada vez menos interessantes. tudo, de certa forma, está. então, vez ou outra, eu me escondo em poltronas ou camas e até atrás da tulipa do bar. tenho preguiça de sorrir, fingir, engolir ou deixar pra lá. 

creio que, se eu deixasse de existir, o mundo nem ia se dignar a ligar.

não que eu me importe,
não que eu não suporte…
é simplesmente triste.

moscou, 1821

me (p)rendo

o silêncio saturno da noite / a passos coturnos no asfalto / cravado / me corta a calma / exposta à ferida viva da alma / entrecortada pelo voo suicida de um cadillac preto / madrugada adentro / cortando o vento / faróis esvoaçantes / quase me acertando / entre o meio-fio de vida e o espaço nú do asfalto / não havia testemunhas / na culpa cravo as unhas / nenhum fantasma noturno que confirme / mas confesso / você é meu crime / me abstraio aos julgamentos / o crime compensa mas o coração não pensa / não mata a dualidade / a paixão & a ciência / o sentimento & a consciência / o amor tem um pouco da arte / outro pouco da alquimia da carne / uma obra do acaso ou um caso de atração? / o perigo é se arriscar demais / é entregar demais à pele, as vontades do coração / os lábios são sempre suspeitos / suspensos / entregam o desejo / acusam à vontade / o beijo, um disparo / um ensejo, um espasmo / expondo as pistas, os fatos, acasos expostos nos atos / teu olhar é meu drama / na cama tua carne inflama / o arrepio lhe entrega / não nega / não me redime / sou culpado / deixei meu coração e você no local do crime

O abstrato das coisas no blues dos teus olhos

Te canto com o olhar calmo, com o que entende e absorve o teu estrago. Te rimo no verso inacabado de sentido, me miro em você e atinjo. Palavras na pele que cobre a carne. No infame do corpo à pureza dos olhos. De alma que sou absolvido e tenho contigo. Sorrio ao ler, sorrio ao te ouvir. Palavra qual não vale nada, em tua boca quase um blues. Nos meus olhos teus que derretem, como se estivesse realmente em minha frente. E sigo estando dentro dos teus olhos, que nem espelho, mas confortante, mas amor, mas encaixe das pupilas que se dilatam com a certeza do choro. E não frio, não silêncio. A música não é meu nome, e sim o teu. O risco que se curva ao abismo. O cerne do entendimento trágico de arte. A mistura e o envolvimento de ritmos e entendimentos. Teu nome, quase um verbo. Metáfora que dança em minha boca, aos teus olhos. E de tudo o que trasborda e realmente não condiz, se condiz, sem sentido. Como música tocada por leigo de partitura qualquer, instrumento soprano mal afinado, pautas de infinitos bemóis e sustenidos. O eco do estrondo que soa no ouvido. O vício do infinito que está em você. Do abismo que sou, ao grito que tenho e uso. Seguro teu corpo com delicadeza maior. Sopro em tua boca uma escala de vida. Reconstruímos asas com música infame e choro sincero e toque do incrédulo. Alma minha e tua transpassando de teus olhos, risos,  corpo e palavras. O que explode e estilhaça, que nos cobre e desgraça, nos une de sangue, e carne, e alma. 

John

constelação de Órion

vem cá, deixa eu desenhar nas suas costas. deixa eu te dizer algumas coisas, coisas do tipo “heey, fica tá? mas fica mais. fica mais tempo. fica comigo. fica por mim. fica um milhão de dias e, quando esses dias acabarem, fica mais um milhão” deixa eu me afogar nos seus olhos, deixa eu te invadir. deixa eu bagunçar sua cama. deixa eu bordar meu nome nas suas cuecas. deixa eu voltar quando eu for embora. deixa eu cantar marcelo camelo no seu ouvido. deixa eu te olhar dormir. deixa eu gravar seu sorriso pra olhar mais tarde (é que eu amo a forma dos seus lábios ao sorrir)(quer dizer, amo seu sorriso)(quer dizer, eu amo você). deixa eu te amar, mas deixa pra sempre. ou por pelo menos uns 274 anos. e mais alguns milhões de anos. 

tentar cansa

não é por nada e nem por tudo, mas talvez você já tenha se pego pensando: por que diabos eu não paro e espero a vida acontecer? eu só preciso saber que aquelas folhas que caem daquela determinada árvore, elas sempre cairão daquela mesma árvore naquela mesma data, sempre obedecendo a ordem, a data, a hora, o ciclo. não se pode desobedecer a ordem, a data, a hora, o ciclo. voce tem que tentar na hora certa, na data certa. e tentar cansa. tenta me entender, entende o que eu tô falando. o que eu quero dizer é que, não interessa o quão boas são as suas intenções, se voce não obedecer a ordem, é como se você nem ao menos tivesse intenções. as folhas tem data pra cair. a árvore tem data pra florir. mas isso tudo cansa. é como levantar cedo, você sabe que tem que levantar, mas mesmo assim você senta na cama e ajusta o despertador pra mais tarde. e mais tarde você levanta e ajusta o despertador pra mais tarde. e mais tarde. e você sempre deixa tudo pra mais tarde. quando se vê, já se perdeu um dia de trabalho e duas provas… já se perdeu uma data importante e até mesmo um feriado todo passado deitado. quando se vê, a vida tá acontecendo e você tá aí deitado, dormindo, com o telefone desligado que é pra não despertar. só esperando a vida acontecer. deitado no sofá, com o controle na mão, esperando a vida acontecer. sentado num banco de um bar qualquer, com um copo de cerveja, esperando a vida acontecer. sentado numa cadeira na varanda de casa, tragando um cigarro de uma marca qualquer, esperando a vida acontecer. mas não acontece. nada acontece nunca. cansa tentar.

naturalmente só se for pra você, demente

odeio positivismo. odeio gente que vive em comercial de margarina. sou pessimista. quero mais explosões e menos versos de amor. quero o fim do mundo. quero meteoros explodindo cidades. quero a maldade. quero a verdade. quero sujeira e céu nublado. quero nuvens encobrindo as estrelas. quero quarto sem janelas. e quero, principalmente, que as pessoas parem de mentir pra si mesmas e parem de acreditar que “vai dar certo”.

eu vou dar certo, acontecer e o caralho a quatro. porque quero.
o universo não tem nada a ver com isso.

paris, 1992

No dia que você voltar

Eu pensei em uma coisa pra te dizer, mas agora esqueci. Acho que não era pra te falar com palavras. Não com essas. Eu nem sei se podia te falar. Sempre quero te dizer algo, eu sempre quero que você saiba que estou aqui. Eu sempre quero que você também esteja.

Outro dia, na rua, eu juro que tinha te visto três vezes. Em alguns lugares. Acho que mais de três vezes. Acho que mais que alguns lugares, talvez em todos. Depois, fiquei encarando a rua, andando sempre com passadas longas, nada dali era você. Mas eu posso jurar como eu queria que fosse.

Os carros passam, as motos ultrapassam, você atravessa todo tipo de sinal vermelho que eu mesma forçava manter. As mulheres conversam, os homens discutem, você grita todo tipo de coisa que meu coração explode ao ouvir. Sempre foi sobre não ser mais forte por medo de te esquecer.

Suas lembranças aparecem em qualquer lugar e eu sempre falo que é por acaso.

Acho que lembrei o que queria te dizer.

Amanda Lua

 

Bastava te dizer, amiúde, que sonhei contigo e quis muito deitar no teu peito frio e recitar quintana e cecília e chorar como uma criança que nunca viu o paraíso. E te contar como passei meus dias tempestivos e como a árvore tem ficado à merce da solidão e que o céu parece não enxergar quando eu choro, caladinho, o amor que eu não recebi. Bastava te sussurrar ao ouvido “eu te amo eu te amo eu te amo” e desejar, fortemente, que o sol irradiasse nosso sexo e nossas vidas e nossos pecados, mesmo que não fossem para nós.

E te recitar drummond e te cantar marcelo camelo e te beijar como se o mundo não fosse feito de guerras e como se não houvesse amanhã. 

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SILENCIAR